A novela das oito agora é às nove

Nas últimas semanas de 2009 estive sequencialmente em São Paulo, Rio e Salvador, as três maiores cidades do país. A população dessas cidades somam 20 milhões de pessoas, 10 % da população brasileira; mas se considerarmos suas regiões metropolitanas, teremos mais de 35 milhões de habitantes, que equivale a cerca de 18 % do total de brasileiros*. Apesar das peculiaridades de cada uma destas cidades, elas têm em comum não apenas uma enorme massa humana, mas aquilo que é onipresente em qualquer metrópole do mundo contemporâneo: os engarrafamentos.
Sei que é chover no molhado, mas, caramba, alguém acredita que os governos municipais, estaduais ou federal conseguirão mesmo resolver o problema do trânsito que aflige qualquer grande cidade brasileira? Toda grande obra de infraestrutura se arrasta ou na falta de recurso ou de projeto, na denúncia de corrupção e sobrepreço, no embargo do TCU ou outra esfera de controladoria, ou, finalmente nos imprevistos da própria obra, isto é, claro, quando todos os níveis de governos se entendem e é dada a ordem de serviço naqueles eventos nos quais toda a galera fica se espremendo sobre o palanque tentando sair na foto. Aliás, no Brasil, obra iniciar não significa que vai acabar... O fato que tudo é lento demais. Principalmente transitar pelas cidades!
E aí cada cidadão se vira como pode, buscando resolver seu problema individualmente. E pior, com a ajuda do próprio governo, afinal foi isso o que ele fez ao desonerar o custo do automóvel particular (curiosamente, ele não fez isso para o transporte público terrestre: pergunte a algum dono de empresa de ônibus quanto é o percentual de imposto embutido na compra de um veículo novo). Comprar carro nunca foi tão fácil. Deste modo, contribuímos todos para que a crise não passasse de uma marolinha, e assim ficamos felizes e... parados a qualquer hora do dia no meio do trânsito. Aliás, já é hora de algum lingüista rever tal termo, afinal transitar significa deslocar-se, algo que deixamos de fazer em nossas cidades.
Não é um dado oficial, mas conheço muita gente que perde pelo menos umas 3 horas por dia nos engarrafamentos. Isso corresponde a 12,5 % de um dia com 24 horas. Usando este raciocínio, quando alguém tiver 60 anos de vida, terá passado 7 anos e meio dos 60 engarrafado, ou, dito de modo diferente, terá jogado 7 anos e meio da sua vida fora.
Como falei antes, cada um acaba resolvendo seu próprio problema. Foi o que fez a Globo, mudando a novela das 8 pras 9. O problema é quando tem futebol no meio da semana!
* Salvador tem mais gente que Belo Horizonte, mas a região metropolitana da capital mineira abriga uma população maior que a baiana.
 

 


 


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