Pedágio urbano?

A revista do IPEA, órgão do Ministério do Planejamento, em seu último número (fev/2007) publicou uma reportagem sobre o pedágio urbano, ou seja, a taxação do uso do carro como “a solução mais indicada pelos especialistas para aliviar o problema” dos congestionamentos nas cidades.
Tendo como modelo experiências já adotadas em cidades como Londres e Cingapura, esta é uma proposta indicada para metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro para, de modo imediato, retirar de circulação um percentual de veículos particulares, além de alavancar recursos financeiros para a melhoria do sistema de transporte público. Tem, contudo, como fator inibidor a impopularidade de uma ação desta natureza.
Na Grande Vitória, a despeito do aumento dos engarrafamentos nos últimos anos, ainda não se cogita proposta semelhante. Por enquanto a expectativa para a melhoria da mobilidade se faz em cima de infraestrutura, como é o caso dos novos terminais do Transcol, do alargamento da Fernando Ferrari e da implementação de corredores cicloviários.
Não resta dúvida que tais medidas beneficiarão a circulação da população urbana local. No entanto, elas têm prazo de validade, isto é, considerando o crescimento médio do número de veículos transitando nas cidades, os engarrafamentos só tendem a aumentar. Mantidos os índices atuais, em menos de dez anos a cidade vai parar!
O que fazer então? Ora, se o trânsito na Grande Vitória ainda não atingiu a saturação como o de São Paulo e Rio de Janeiro, então estamos numa situação privilegiada quanto ao planejamento das ações. O fato é que só investimentos em infraestrutura não serão suficientes. Já o transporte público sofre com a incapacidade de sua autossuficiência, pois grande parte da população urbana não consegue arcar com os custos das passagens. O resultado é um sistema com baixa qualidade que não consegue atrair novos passageiros, e que sempre pensam no automóvel particular como a melhor alternativa de deslocamento.
No Brasil, carro é símbolo de status. Há quem abra mão de uma casa melhor, se endivide, tudo para poder desfilar pelas ruas com um carro arrasando. Aí está, portanto, parte do problema e da solução dos nossos engarrafamentos: a cultura do automóvel.
Toda transformação cultural é lenta e difícil, dependendo de vários fatores que muitas vezes a inviabilizam. Mas justamente porque ainda estamos um pouco longe do colapso viário, isso se torna uma vantagem estratégica. Trata-se de um tipo de ação planejada que não permite inaugurar obras, que depende de toda a sociedade civil organizada, que terá pela frente a poderosa indústria automobilística (um dos motores do crescimento econômico), que faz do carro vilão tirando-lhe prestígio, mas que terá que ser enfrentada, a não ser que a gente prefira o pedágio urbano.


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