Dicotomias*

“Não existiria som/se não houvesse o silêncio/haveria luz/se não fosse a escuridão”, cantado por Lulu Santos expressa bem uma dicotomia incontestável e que proporciona uma reflexão sobre a interdependência dos paradoxos.
Ainda estudante universitário, lembro do meu mestre Luiz Paulo Conde comentando sobre esta situação típica brasileira: Rio ou São Paulo, Flamengo ou Vasco*, Ângela Maria ou Marlene, Juliana Paes ou Ana Paula Arósio? Naquela época, nos anos 80, frequentando o Baixo Leblon, ouvia muita bobagem deste tipo nos discursos da galera propondo uma tomada de posição entre “Chico ou Caetano”, até que a Globo fez Chico E Caetano e esvaziou o debate ideológico da juventude inserida na transição política.
Mas existem mesmo aquelas polaridades que não podemos sequer pensá-las separadas, precisam estar juntas simultaneamente, entrando o “e” no lugar do “ou”: arroz e feijão, pagode e cerveja, cachaça e limão, sol e praia, Antônio Carlos e Jocafi.
Já em algumas situações a coisa é tão indissociável que se faz necessário usar o “com”: café com leite, goiabada com queijo, pão com manteiga, camarão com chuchu (se bem que camarão vai bem com outras coisas, e até sozinho, enquanto que o chuchu a gente só lembra dele com o camarão mesmo...).
Mas pô, muito melhor assim quando opostos se unem de modo inclusivo seja no “e”, seja no “com”, ao contrário da visão excludente que se dá no “ou”. Só que é justamente isso que está ocorrendo agora nesta etapa final da campanha eleitoral.
O que estamos vendo é o que podemos chamar de dicotomia determinista na qual só há esperança de um futuro melhor se o candidato tal ganhar, pois o outro candidato seria uma verdadeira tragédia para o país!
É claro que na história brasileira recente vimos muitos, muitíssimos, casos de políticos que enfiaram os pés pelas mãos, tanta a quantidade de denúncias diariamente divulgada na imprensa. Mas, por outro lado, quero crer que no nível de estabilidade que alcançamos, os dois candidatos detêm condições de governar este país. É certo que cada um tem sua própria visão de mundo, e é isso que é positivo na democracia, razão pela qual quem ganhar conduzirá o processo a seu modo. Mas mesmo num regime presidencialista, ninguém poderá fazer o que quer, afinal não faltam meios para acompanhar e fiscalizar as ações públicas da presidência, pois o que interessa é o bem comum.

* Texto publicado em Rabiscos ao Vento em outubro de 2010. Ano de Copa e de Eleições no Brasil

** A grandeza do meu Botafogo não lhe permite entrar nessas picuinhas.


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