Vitória contraditória

Vitória é uma cidade contraditória. É claro que outras cidades também apresentam suas contradições, mas aqui a coisa tem sua peculiaridade.
A contradição não é uma coisa totalmente ruim, como muitos podem supor. Vários distúrbios psicológicos são descritos usando o termo contradição, pois se imagina que comportamentos enquadrados como adequados demandam regularidade e homogeneidade. Mas, afinal, quem é permanentemente regular, de tal modo que possa receber a insígnia de normal? Nesse caso, o certo seria aceitar que, para sermos normais, temos que ter certo grau de irregularidade ou incoerência. A partir de determinados limites é que a contradição comportamental seria tão radical que recairia numa categoria de anormalidade. A dificuldade é justamente a definição desses limites.
A arte e a arquitetura, como reflexo do homem e da natureza, fazem uso da contradição como meio de expressão. Mas nem sempre foi assim. Em vários momentos históricos, como no Renascimento, Neoclassicismo e Modernismo, almejaram a perfeição, buscando referenciais simbólicos que denotassem essa ideia de virtualidade e plenitude total.
Tendo como marco a Semana de Arte Moderna de 1922, artistas e intelectuais brasileiros logo adotoram o Modernismo como ideologia. E o projeto de Brasília de Lucio Costa foi o ápice desse projeto de nação virtuosa. O modelo urbanístico moderno pressupõe unidade e homogeneidade num projeto que pensa a cidade em sua totalidade. Uma estrutura unívoca em consonância com a nova sociedade urbana. Brasília foi pensada segundo um modelo ideal capaz de representar a capital centralizada da maior nação do hemisfério sul, o país do futuro que abandonava sua condição arcaica e rural e partia em direção ao desenvolvimento industrial e urbano.
Há quem afirme, contudo, que o Brasil nunca alcançou o ápice moderno e tampouco o abandonou quando ele deixou de ser o pensamento doutrinador na segunda metade do século XX, quando o Pós-modernismo tornou-se a ideologia hegemônina no mundo. As causas são muitas e muitos foram os que se dedicaram a conceituar o Pós-modernismo. Na arquitetura, o texto mais contundente, escrito por Robert Venturi em 1966, tem justamente o título Complexidade e Contradição em Arquitetura.
Na sua busca pela perfeição, o Modernismo eliminou excessos, simplificou a forma e almejou limitar-se à essência estrutural dos objetos. Com o tempo, tornou-se monótono. O Pós-modernismo retomou a ideia de incoerência e casualidade como expressões de um mundo agora fragmentado e multicultural.
Nessa dualidade Moderno x Pós-moderno, há um aspecto fundamental: os modernistas idealizaram um novo mundo, e para isso anteciparam os problemas que viriam, propondo ações que, pelo menos em teoria, evitariam os colapsos urbanos. Os pós-modernistas, ao contrário, esperam os problemas aparecerem para, aí sim, tentar resolvê-los. Em outras palavras, o modernista é um utópico inconformado, enquanto o pós-modernista é um resignado.
O fato é que o mundo pós-moderno é contraditório e fragmentado, duas características da atual cidade de Vitória. O fato mais evidente é a capital do Estado ser circunscrita em sua região metropolitana por cidades maiores, diferentemente do que ocorrem nas demais capitais brasileiras.
A fragmentação é resultado da inexistência histórica de um projeto unívoco para a cidade. Algo que aparece, por exemplo, na transição entre bairros, como é o caso de Jardim da Penha e Mata da Praia que apresentam tecidos urbanos descontínuos. O primeiro com suas ruas largas, prédios baixos e avenidas em diagonal que confundem o motorista desavisado; o outro com duas escalas edilícias (casas baixas e prédios altos), mas, principalmente, com um desenho urbano com ruas sem saída e que não “dialoga” com o vizinho.
Esse tipo de contrassenso que marca a cidade já tinha aparecido inclusive no seu primeiro planejamento estratégico realizado em 1996 denominado Vitória do Futuro com o embate entre o caranguejo e o marlin. Definiu-se que o caranguejo (típico da culinária local) ao andar de lado não representava a ideia de desenvolvimento que se pretendia dar à cidade, enquanto que o marlin (um peixe desagradável ao paladar, mas valioso para a pesca de arremesso, um esporte elitista) é quem poderia expressar simbolicamente o salto de desenvolvimento desejado por aqueles envolvidos em tal planejamento. E o que se vê hoje, quase 20 anos depois, é que a cidade nem deu o salto nem andou para o lado.
O problema da contradição é que ela gera indecisão. Dar o salto é tornar-se uma capital cosmopolita da aldeia global? É possível conciliar a imagem de cidade presépio com a de uma cidade desenvolvida? São esses alguns dos desafios que a pós-modernidade impõe aos capixabas.
 


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