A Beleza íntima das Cidades

A beleza é algo necessário ao bem estar humano. As sociedades, em todas as suas épocas, buscam um ideal de beleza, ainda que o padrão de gosto não seja algo estático, mudando conforme o período histórico.
Durante quase toda a história ocidental, a arte tinha como princípio inquestionável a busca do belo, normalmente associado à reprodução da Natureza visível. Nesse sentido, a beleza era o Fim de toda obra de arte. Se a arte moderna rompeu com essa tradição, pondo em choque o ideal de beleza, a arte contemporânea extrapolou essa ideia propondo, inclusive, a necessidade de sua temática incluir elementos como a feiúra, a violência e o grotesco, num processo de deslocamento da representatividade da obra, a qual, a partir da agora, teria papel de instrumento de denúncia das injustiças e contradições da sociedade. Contudo, apesar desse viés da arte atual, o que as pessoas em geral ainda querem é conviver com a beleza, seja qual for o padrão da moda em vigor.
Mas o belo que nos faz bem não se refere apenas ao corpo humano, e sim à totalidade das coisas, o que inclui o ambiente no qual vivemos, inclusive as cidades. As regras em favor de uma composição estética direcionada à beleza das cidades também foram sofrendo inflexões ao longo do tempo, da qual destacamos inicialmente o classicismo greco-romano e, mais tarde, a teatralidade barroca.

 
Tratam-se, porém, de processos cíclicos: num período o gosto recai em favor de um modelo cartesiano, racionalista, com eixos ortogonais de vias e quadras regulando o espaço urbano numa hierarquia de instituições estrategicamente posicionadas ao longo de praças e avenidas em longas perspectivas. Em outro momento o que se vê são desenhos orgânicos, com ruas sinuosas, labirínticas que surpreendem o olhar do caminhante a medida que os percursos vão mudando de direção. Assim, são várias as cidades que foram acumulando estratos contendo os diversos modelos que surgiram ao longo da história, enquanto que outras possuem uma imagem mais unívoca que, muitas vezes, coincide com o auge vivido por aquele determinado centro urbano.
Sim, cidades devem ser belas, de tal modo que todo cidadão sinta orgulho de ali viver, sentindo-se bem consigo mesmo, participando do processo de construção diária dessa beleza espacial compartilhada.
Mas, seria o padrão de gosto em razão da beleza urbana algo absoluto ou relativo? Aceitando-se de imediato o fato de que unanimidade é algo impossível ao tratarmos de questões de beleza, ainda assim podemos considerar um modelo estético capaz de abarcar o gosto de uma maioria? Será Veneza um padrão indiscutível de beleza ou se trata mais de uma curiosidade em função da peculiar condição daquela cidade?
No mundo globalizado e turistizado, já conhecemos de antemão imagens de cidades sedutoras, famosas por suas belezas e que tanto atraem pessoas desejosas de conviverem com paisagens urbanas adjetivadas. E cabe lembrar que algumas dessas paisagens fazem parte de metrópoles, enquanto que outras correspondem à pequenas vilas ou núcleos urbanos. Se é legítimo que cada morador tenha orgulho de sua cidade, principalmente quando ele a considera bonita, ainda assim a beleza não pode ser medida pela quantidade de pessoas que conhecem e reconhecem dita beleza, afinal desse modo Barcelona seria mais bonita que Toledo ou Salvador mais bela que Diamantina.
Por outro lado, metrópoles como Paris ou o Rio de Janeiro não são famosas apenas por sua beleza, mas porque também reúnem vários outros atributos, principalmente culturais, que lhes dão destaque midiáticos.
 
E o que dizer então das cidades capixabas? É curioso o caso do pôr do sol de Colatina, considerado pelos moradores da cidade o "2º mais bonito do mundo". A despeito da bem intencionada soberba dessa afirmação, a questão que transparece é: afinal, qual é então o "mais" bonito pôr do sol do mundo? Seria o de Ipanema ou o de Mykonos? Além disso: como se mede a beleza de um pôr do sol? São perguntas sem respostas, e o que interessa é mesmo a crença dos colatinenses na graça de sua paisagem de fim da tarde. E aí, tanto faz em qual colocação ela estaria numa votação global, pois o que importa é o quanto aquela imagem é capaz de transmitir aos que possam contemplá-la.
Enquanto isso, não faltaram declarações sobre a beleza de Vitória por ocasião do seu recente aniversário. Alguém postou algo do tipo: "uma das cidades mais bonitas do mundo". Ufanismos à parte, nesse caso a questão é: quem, exceto os capixabas, compartilham dessa ideia? Na condição de capital do Espírito Santo, e com sua geografia singular, Vitória ainda não usufrui, porém, dessa imagem para aqueles que aqui nunca estiveram, o que contribui, inclusive, por um desempenho turístico aquém de suas possibilidades quando comparada com outras cidades brasileiras.
Fica portanto a questão: qual a imagem de beleza que as cidades capixabas emanam aos estrangeiros?

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