Por ruas mais amigáveis

Chegou recentemente às minhas mãos uma revista publicada pela ABRASEL – Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, cuja matéria de capa é o manifesto intitulado “A partir das ruas, simplifica Brasil”. Trata-se de um protocolo de intenções em favor de uma cidade mais segura e amigável, com ruas confortáveis e aprazíveis de se circular a pé, nas quais encontramos ao longo das calçadas pessoas sentadas em padarias, cafeterias, bares e restaurantes, mas também entrando e saindo de lojas, academias e hotéis, embarcando nos ônibus, pedalando ou simplesmente sentadas num banco de praça lendo um jornal ou jogando dominó com os amigos.
Esse tipo de cidade existe e quem as conhece sabe o quanto é agradável morar num lugar assim.
Oque temos visto aqui no Brasil, porém, é a falência de um modelo de cidade focada notadamente na questão do tráfego motorizado em detrimento de outros aspectos que regem a urbanidade. E isso vale atualmente tanto para as metrópoles quanto para as pequenas comunidades, como vimos recentemente em Santa Teresa onde um casarão histórico numa rua contendo justamente aquilo que o manifesto da Abrasel defende, corre o risco de desaparecer em função da priorização do trânsito de veículos.
É necessária uma revisão nesse conceito de cidade no Brasil. Começamos nossa história tendo as cidades europeias como modelo, seja no traçado, seja na largura das vias. Aí, achou-se que devíamos adaptar as vias para futuras ampliações no carregamento motorizado viário e obrigou-se que as construções tivessem recuo. A consequência são prédios distantes das calçadas por onde circulam as pessoas e essas, por sua vez, tendo que conviver com a aspereza de um trânsito cada vez mais virulento. Esse é só um dos muitos exemplos que vêm contribuindo para “a morte da rua”.
A rua deveria ser o lugar de encontro, no entanto, ela tem se transformado num espaço de passagem aonde não se quer estar. Ruas inseguras, ruas sem bares ou qualquer outro tipo de ambiente que favoreça a cumplicidade de quem quer dividir as experiências que a cidade proporciona. Ruas sem movimento, a não ser o dos carros com seus vidros levantados e escuros, onde ninguém mais se vê.
Não, certamente não é essa a cidade que eu, nem a Abrasel, nem muito de nós desejamos. Quem já teve a oportunidade de sentar num café parisiense, numa cantina em Roma, ou até mesmo num bar da Praia do Canto sabe o quanto vale a pena trabalhar para poder usufruir desses momentos. E é justamente isso: o trabalho não é incompatível com tais momentos e, mais além, cafés, cantinas, bares e restaurantes são geradores de emprego, renda e ruas aprazíveis.
 


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