CIDADES EM GUERRA

É certo que, do ponto de vista tecnológico, a humanidade evoluiu, ou melhor, deu um enorme salto. Em 2001 - Uma Odisséia no Espaço, Stanley Kubrick apresentou-nos, de forma genial, essa caminhada que teve início no antecessor do Homo Sapiens e chega ao espaço sideral.
No entanto, no que se refere aquilo que a humanidade deveria ter de mais precioso, isto é, a fraternidade envolvendo as relações entre os indivíduos, certamente ainda somos uns selvagens.
O próprio Kubrick mostrou tal paradoxo, pois naquele momento primordial no qual o ancestral humano despertou na direção da racionalidade que caracteriza os que desenvolvem tal capacidade, o fez usando do sopro de inteligência por meio da violência. Ao dar-se conta de que um osso não era um osso, mas uma ferramenta a seu serviço, aquele hominídeo capacitou-se a estar em condição superior aos demais que ainda não dominavam qualquer instrumento manuseável. Sua vitória era a garantia e estímulo para que outros tentassem superá-lo, de tal modo que um processo competitivo iniciou-se, forçando o avanço tecnológico que caracteriza até hoje a humanidade.
Alguns antropólogos, psicólogos e historiadores afirmam que o homem é um ser naturalmente violento. Nesse sentido, o processo civilizatório seria um esforço (inútil) para "domesticar" o homem, tentando torná-lo capaz de conviver em harmonia com seu semelhante. Como se sabe, não há na história nenhum período longínquo de paz entre os homens.
E não há mesmo uma cultura da paz. Mesmo aqueles que não convivem diretamente com a violência, têm na fúria do homem contra homem sua fonte de prazer. Senão, como explicar os gladiadores romanos, os boxeadores do século XX ou o UFC atual? Portanto, uma sociedade na qual pessoas sentem prazer em ver um homem agredir fisicamente outro homem é aquela que possui em seu cerne a cultura da violência.
E essa cultura é tão arraigada que serve, inclusive, para explicar o êxito tecnológico de civilizações, como é o caso dos EUA. Muitos argumentam que a hegemonia americana se deve ao seu histórico de guerras, justificando assim sua superioridade econômica, política e, claro, militar.
No entanto, se no passado os batalhões militares adversários combatiam nos campos agrícolas extramuros às cidades, deixando parte da população civil ilesa, hoje as guerras ocorrem no meio urbano. E assim, na cultura permanente da violência, mesmo aqueles povos que não se encontram em guerra, o Brasil por exemplo, são contaminados ubiquamente pela fúria humana.
É claro que a violência não se manifesta apenas fisicamente, pois sabemos que as várias formas de violência mental e moral podem ser tão danosas quanto aquela que maltrata o corpo biológico.
Aparentemente não há como escapar, estamos todos sob algum tipo de mira, seja ela literal ou não. E em nenhum lugar isso é mais evidente do que nas cidades, notadamente nas brasileiras, mas também naquelas localizadas em países desenvolvidos constantemente sob risco de ataques terroristas.
Thomas More descreveu Utopia (1516) como um lugar fantástico, uma cidade insular onde todos seriam felizes. Desde então, o termo passou a designar algo desejável, porém nunca realizado e inalcançável. Seria então utopia pensarmos numa cidade sem violência, nem que fosse numa ilha? Nem que essa ilha se chamasse Vitória?
More concebeu sua alegoria no Renascimento, período histórico fértil no qual a humanidade acreditava no poder de transformação do mundo. A descoberta do continente americano, a imprensa, a genialidade de Da Vinci, Michelangelo, Galileo ou Alighieri, entre outros, possibilitou imaginar um novo modelo de sociedade, dessa vez pacificada. Mas não, apesar de todos os avanços ocorridos na época, a violência persistiu...
Ainda assim, a desejável utopia por um mundo melhor, cuja abnegação nos trará uma vida virtuosa, invariavelmente retorna, como no caso do Modernismo, outro período histórico de inegáveis avanços e transformações tecnológicas e sociais. Porém, aqui também houve fracasso...
Vitória recentemente anunciou a redução em seus índices de criminalidade. Esse dado positivo, porém, deve ser confrontado com duas questões: 1. Pessoas continuam matando, assaltando, roubando, sequestrando... ou seja, apesar da diminuição, ainda convivemos com uma violência urbana acima do tolerado; 2. Nas redes sociais e em audiências públicas por conta da revisão do PDU, por exemplo, temos visto como a sociedade atual se mostra extremamente intolerante e preconceituosa, razões que incitam a agressividade entre as pessoas.
A utopia nunca foi tão necessária.

envie para um amigo
|VOLTAR|