A CIDADE UMA CRÔNICA-POEMA OU SERIA UM POEMA-CRÔNICO?

 Cidade-paisagem.

Descobrir a paisagem a ser revelada. 
Descobrir a cidade que é paisagem num cenário dissimulado. 
Paisagem, cidade e território. 
O espaço se torna híbrido, descontínuo, de tal modo que arquitetura e paisagem se infiltram mutuamente.
O aparente caos urbano que se torna suporte para uma reflexão estética.
Num mundo cada vez mais fragmentado e pluralista, já não é possível pensar num modelo universal de cidade.
Cada cidade é um microuniverso habitado por diversos grupos que coexistem simultaneamente no mesmo espaço vivido. 
Assim como o tempo, que se multiplica, atinge várias velocidades, sobrepõe épocas distintas.
 
 
Em nossa formação, ainda somos tentados a ver beleza urbana estampada (apenas) em paisagens seculares, em traçados contínuos e uniformes. 
Aparentemente, precisamos de uma ordem, um padrão homogêneo. 
Buscamos paisagens urbanas de um tempo que parece congelado. 
Seria a variedade indutora de uma paisagem inquieta, caótica?
Visadas que conduzem nosso olhar para uma experiência sensível.
Como paisagem, a cidade não privilegia pontos de vistas.
Somos obrigados a nos perder nas ruas das cidades... Perder a direção, para só depois nos acharmos.
Nesse processo, descobrimos ângulos inusitados, novas paisagens...
... novos percursos, outros pontos de fuga.
Reeducamos nosso olhar. 
A paisagem urbana se torna heterogênea, resultado de camadas sobrepostas; é necessário, portanto, uma correção do olhar que veja beleza nessa estrutura fragmentada e plural.
O velho já não é descartado, o novo é a nossa relação com passagens antes ignoradas.
Espaços residuais são ocupados, transformados. Nada escapa, nada se perde...
Aprendemos a admirar as múltiplas visões que a cidade emana...
... a beleza dos fragmentos.
Temos que ser capazes de imaginar estruturas supratemporais, aonde o “ecletismo” se faça novamente presente.
A cidade assume seu papel como obra plural. Surge o fenômeno da intermedialidade: a obra liga-se com outras obras, relaciona-se com outras imagens.
E assim seremos obrigados a reconhecer que não há um modelo hegemônico, pois nem o planejado nem o aleatório podem resultar numa paisagem aprazível.
Mas o fortuito artificioso não revelaria a natureza de uma nova paisagem?
Esta cidade, sem premeditação, pode parecer uma paisagem natural?
Necessitamos de eixos estruturadores que possam conduzir nossas ações?
Seria então o espaço ordenado, seguro, idealizado a partir de uma geometria cartesiana uma garantia de felicidade?
 
A cidade se torna então tela para novas expressões artísticas. 
Os espaços residuais adquirem novos usos, nada é desprezado, descartado...
Tudo vira suporte para uma arte total. 
E a cidade é a grande obra de arte coletiva.
A rua vira palco, a cidade é cenário e todos são atores.
Áreas então desfiguradas são requalificadas, surgem novos usos, novas imagens.
Antigas áreas industriais dão lugar para atividades comunitárias, preferencialmente relacionadas ao lazer, ao convívio e ao turismo.
Novas ocupações, oferecendo uma nova experiência do lugar.
Novos marcos urbanos são criados.
Estruturas monumentais para reconfigurar o espaço urbano da sociedade contemporânea.
Elementos que, mais do que orientar, explodem as estruturas preexistentes.
Uma arquitetura do vazio, topográfica, que cria lugares a serem explorados.
A arte ganha a rua, se torna pública, transforma a paisagem urbana, assume o contexto, dialoga com o cidadão.
Reconfigura o espaço da cidade e almeja dar caráter artístico a todo objeto público.
Para isso é necessário rebater a velocidade com a qual nos movemos.
O tempo linear contínuo é substituído pelo tempo instantâneo, pela efemeridade.
Mas, é possível movermo-nos lentamente no tempo presente? É desejável?
Já estamos preparados para lidar com outra velocidade que configura uma paisagem instantânea?
Já somos capazes de redescobrir a cidade que nos circunscreve, e que até então encontrava-se dissimulada?
 

envie para um amigo
|VOLTAR|