PLANEJAMENTO URBANO NÃO É CAMPEONATO DE FUTEBOL

No livro “Os novos princípios do urbanismo”, o sociólogo francês François Ascher argumenta que uma das características do processo de modernização nas sociedades contemporâneas é a individualização que se sobrepõe ao coletivo, enfraquecendo o agrupamento humano.
De fato, com o desenvolvimento dos meios de transporte e comunicações ocorrido no bojo da modernidade, as fronteiras se romperam e o cidadão partiu para o mundo, deslocando-se de um grupo para outro. Como consequência, ocorre um arrefecimento nas comunidades locais, com o EU se tornando preponderante ao NÓS.
É importante ressaltar que isso não é uma invenção freudiana, mas apenas o reconhecimento pelo pai da psicanálise sobre a necessidade do estabelecimento de novos instrumentos de análise da mente humana. Isso se deve ao desejo do homem pela autonomia em várias esferas (social, cultural, política, econômica e até afetiva), o que, uma vez alcançada, lhe cobrou um alto preço emocional a ser pago.
Se antes havia um senso crítico coletivo e uniforme, hoje as pessoas sabem que podem decidir individualmente onde e como morar, como se vestir, qual religião seguir, qual a forma do seu corpo, sexualidade, etc, de tal modo que a sociedade fica cada vez mais complexa em relação às decisões coletivas.
Com o Estatuto da Cidade, lei federal que trata da política urbana e tem como princípio o planejamento participativo, quase todos os municípios brasileiros se viram obrigados a elaborarem planos diretores, num processo que envolve os diversos atores sociais que compõem a cidade, desde comunidades de bairro aos setores produtivos, passando pelos órgãos de controle e instituições de ensino e pesquisa, todos eles muitas vezes com interesses antagônicos em relação a um bem comum, que é a cidade.
As audiências públicas, por exemplo, que é um dos instrumentos previstos no Estatuto da Cidade visando garantir o tal planejamento participativo, são muitas vezes, para não dizer quase sempre, palcos de disputas acirradas, para não dizer violentas, nas quais fica patente como o cidadão brasileiro é egoísta e só pensa no seu próprio umbigo. São em momentos assim que a questão da individualização moderna se torna realmente bastante evidente e inquestionável.
Ocorre que planejamento urbano não é campeonato de futebol, no qual o mais forte, que nem sempre é o melhor ou o mais talentoso, acaba vencendo em detrimento de todos os demais.
Pensar a cidade, lugar de moradia da maior parte da população brasileira e mundial, de modo coletivo, considerando os interesses da maioria, mas sem desconsiderar as minorias, é um dos maiores desafios da modernidade. E para ilustrar tal desafio, basta pensar numa simples reunião de condomínio, onde a maioria sequer comparece e os que se fazem presente não conseguem chegar a um consenso.
 

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