A CHUVA VEM DO CÉU, MAS A SUJEIRA VEM DA GENTE

É realmente entristecedor ver a situação de várias famílias capixabas que perderam boa parte dos seus bens após a enxurrada ocorrida recentemente. Em Vila Velha, um dos locais mais atingidos pela chuva intensa, o drama se estende em função das águas terem demorado alguns dias até baixarem.
E aí, é claro, que a população tem o direito e deve mesmo se manifestar, reclamando do poder público em sua demora em realizar as obras necessárias para acabar ou, senão, minimizar esse problema recorrente, afinal, toda vez que chove é a mesma coisa. 
No entanto, é essa mesma população, ou parte dela, que no dia seguinte à tempestade, jogou fora, em plena rua, os pertences estragados, tais como colchões, eletrodomésticos, móveis de madeira ou até comida estragada. Se os objetos ajudarão a entupir bueiros e diminuir a capacidade de escoamento dos cursos d’água, provocando novos alagamentos, os alimentos, mesmo estragados, serão chamarizes para animais como ratos e urubus, aumentando o risco de doenças que atinge a própria população, e que depois vai pra rua reclamar das autoridades...
Trata-se de um problema que se soma à baixa cobertura nacional de saneamento básico no Brasil, tal como divulgado recentemente pelo IBGE, e que é resultado do baixo investimento público no setor. 
Apesar do compromisso do Brasil com a ONU em relação à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, na qual o objetivo 6 é intitulado “Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos”, os números do investimento nesse setor são desanimadores. Segundo dados da Agência Nacional da Água, em média, 45% da população não possui tratamento de esgoto. No que se refere à coleta de lixo, incluindo seu tratamento, também estamos indo muito mal, com mais de 7 milhões de toneladas de resíduos sólidos sem coleta ou com destinação inadequada. O dado fica mais estarrecedor quando se revela que apenas 40% dos municípios dão destinação correta ao lixo, conforme determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos, em vigor desde 2010, ou seja, há quase dez anos. 
Tampouco vemos ações educativas por parte do poder público em todas as suas esferas, afinal, trata-se de um problema que afeta a todos. O lixo descartado incorretamente num bairro, município ou região, pode contaminar o lençol freático que abastece o bairro, município ou região vizinho. Ou seja, os governos nem realizam as obras necessárias, nem implantam programas de transformação do hábito popular que considera que o espaço público é de ninguém, como se fosse uma lixeira ou uma fossa.
De qualquer modo, é de se lamentar que em pleno século XXI as pessoas tenham tal comportamento, isto é, que seja preciso campanha educativa para falar do óbvio. Nesse ponto, parece que a humanidade regrediu... E aí, poderíamos até pensar que tem coisa pior: em diversos países da África e da Ásia, as pessoas possuem o costume de defecar a céu aberto! A prática, absurda, inclusive também faz parte do objetivo 6 da Agenda 2030: “alcançar o acesso a saneamento e higiene adequados e equitativos para todos, e acabar com a defecação a céu aberto”.
O urbanista Lewis Mumford em seu livro seminal “A cidade na história”, mostra como o surgimento da cidade, com o salto civilizacional, esteve relacionado, entre outras coisas, ao manejo agrícola no entorno das aldeias, por meio da fertilização feita com fezes e rejeitos, que aumentou substancialmente a capacidade do homem em produzir seu próprio alimento. É um paradoxo saber que o homem atual se vê incapaz de lidar com questões que já deviam estar superadas, como mostrou o homem paleolítico. 
 

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