CIDADES PLANEJADAS NO ESTO LIVRES DAS TRAGDIAS DAS CHUVAS

 “Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / (...) / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva” (Sampa, Caetano Veloso)

 
O espanto causado pelas imagens da destruição em Belo Horizonte em função das fortes chuvas é ainda mais impressionante se considerarmos que a capital mineira foi uma das primeiras cidades planejadas do país, em projeto chefiado pelo engenheiro Aarão Reis. 
Com o fim da monarquia brasileira, o início do período republicano foi marcado pelo desejo de modernização do país, de tal modo que a antiga cidade de Ouro Preto, até então capital de Minas Gerais, não seria capaz de simbolizar e absorver as novas demandas de um Estado que queria se mostrar em pleno desenvolvimento.  A nova capital, com traçado cartesiano e vias em diagonais, foi então planejada para o futuro, ao contrário das demais cidades brasileiras, muitas delas fundadas pelos portugueses no período colonial, outras surgidas de modo quase espontâneo, e praticamente todas elas sem nenhum tipo de planejamento unívoco que desse conta das transformações em curso na república brasileira. 
No entanto, pouco da cidade planejada resistiu aos dias atuais, quando uma enorme expansão urbana descontrolada circunscrita ao projeto original desfez a lógica urbanística daquela modernidade desejada. 
Isso de fato se vê refletido num tema caro aos cidadãos brasileiros: a mobilidade de quem tem que enfrentar diariamente um trânsito pesado entre a casa e o trabalho. E justamente a cidade de Belo Horizonte tem sido apontada em algumas pesquisas como uma das capitais com pior trânsito do país. 
E a evidencia no abandono do planejamento no ordenamento da(s) cidade(s) fica mais patente quando se pensa nas consequências da tempestade recente. Afinal, se a chuva torrencial foi o gatilho inesperado, é preciso também considerar a canalização dos rios que viraram pistas para o tráfego de veículos, cujos canais não suportaram o volume d’água que acabou transbordando pra todos os lados. 
Bem, há quem possa argumentar que tapar os rios para implantação de vias de tráfego é resultado de planejamento. Contudo, tratar-se-ia de um planejamento focado exclusivamente no trânsito (e nem se pode dizer na mobilidade, pois quando tais obras foram realizadas o objetivo principal era a expansão das vias para veículos automotores). A questão hidrológica, portanto, foi desconsiderada. E até mesmo a paisagística!
É o que ocorreu, por exemplo, também em Vitória com a obra recentemente concluída pelo Governo do Estado na Avenida Leitão da Silva, onde o canal foi coberto por novas pistas, mas também por uma ciclovia (aos capixabas, resta então rezar para que não venha uma chuva como a ocorrida na capital mineira). 
Ao contrário de BH, a capital do Espírito Santo teve seu início com um traçado urbano baseado no modelo português colonizador, com uma “cidade alta” e uma “cidade baixa” e com ruas estreitas e sinuosas. O trecho da cidade planejado só veio depois, pelas mãos do engenheiro Saturnino de Brito, na região então denominada Novo Arrabalde, no qual hoje se encontra a Avenida Leitão da Silva. Infelizmente, o projeto de Brito, que levava em consideração a hidrologia e a natureza geográfica da cidade com diversos afloramentos rochosos, acabou sendo descaracterizado de modo permissivo pelas diversas administrações municipais que se seguiram.  
E a razão que guia qualquer planejamento é o instrumento que possui o homem para lidar com a natureza; e nisto não pode haver improviso ou negligência. E aqui também cabe afirmar que não falta conhecimento técnico aos arquitetos, urbanistas e engenheiros brasileiros para lidar com o planejamento e gestão das nossas cidades. O que há, e muito, é interferência política, que sempre prefere o improviso ou faz vista grossa à negligência. 
Não fosse assim, talvez a forte chuva que agora abateu nada menos que São Paulo, a maior e mais rica cidade do país, não tivesse provocado tantos transtornos para a enorme população que vive e trabalha na capital paulista. E como todos, principalmente os paulistanos sabem, não foi a primeira vez e nem será a última que a cidade ficou refém da força da água, que vem do céu e corre por suas marginais. 
Que São Pedro tenha piedade de nós!
 

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