SURTO DE CORONAVÍRUS REFORÇA AS MUDANÇAS NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS

 Nos últimos anos, índices como o PIB (Produto Interno Bruto) que mede a riqueza das nações e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) deixaram de ser suficientes para medir a qualidade de vida da população, bem como para orientar as políticas públicas dos governos. Daí que em 2011 a ONU, em sua Assembleia Geral, recomendou que os países passassem também a medir a felicidade dos seus povos, e com isso, agora também temos o Relatório Mundial da Felicidade, ou simplesmente, Índice da Felicidade.

Durante muito tempo, a imagem que as pessoas tinham do Paraíso na Terra era uma praia com águas mornas na cor azul turquesa e cheia de coqueiros, algo que se encontra nas regiões tropicais do planeta. Por associação, imagina-se então que ser feliz é estar num lugar assim.
Não obstante, de acordo com o Relatório Mundial da Felicidade, os cinco países mais felizes do mundo são, na ordem, 1- Noruega; 2- Dinamarca; 3- Islândia; 4- Suíça; e, 5- Finlândia, ou seja, todos eles estão localizados em regiões cujo clima é predominantemente muito frio e com dias muito curtos durante o inverno. Tal circunstância faz com que as pessoas saiam pouco de casa, mantendo-se bastante tempo em locais fechados, sem atividades comunitárias ao ar livre, de tal modo que se tornam mais introspectivas; ao contrário dos povos das regiões mais quentes, mais alegres, extrovertidos, brincalhões e que curtem mais a natureza. 
Neste ponto, já podemos dizer que alegria e felicidade não são a mesma coisa, ainda que possam estar próximas. De fato, uma das definições de alegria é “estado de viva satisfação, de vivo contentamento; regozijo, júbilo, prazer”, enquanto para felicidade temos a seguinte definição: “qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar”.
É claro que uma das condições de estar feliz ou alegre é gozar de boa saúde, afinal não se imagina que pessoas enfermas possam sentir prazer ou contentamento. E aqui é importante mencionar que no Relatório Mundial da Felicidade, uma das variáveis medidas é a “expectativa de vida saudável”.
E agora, em consequência dos três Ps, pandemia, pânico e paranoia provocados pelo coronavírus, que já provocou milhares de mortes e ainda provocará muitas outras mais, teremos que nos isolar uns dos outros. Ainda que se trate de uma medida momentânea, até passar o pico do contágio e a doença esteja sob controle, como tem sido afirmado pelos profissionais de saúde, a mudança de hábitos, entre elas o cumprimento com aperto de mãos, beijos no rosto e os abraços, podem estar em processo de desaparição na sociedade, tal como a conhecemos hoje.
Por outro lado, o mundo atual tem visto o aumento vertiginoso de doenças como estresse, depressão e ansiedade. Segundo estudos médicos, entre as várias causas de tais enfermidades está a solidão, algo que também vem crescendo em todo o mundo. Pesquisas na área da saúde, indicam que a solidam também pode provocar pressão alta, predisposição para diabete e/ou câncer, insônia, além de dependência ao álcool, cigarro ou medicamento. O distanciamento físico entre as pessoas, notadamente nas grandes cidades, em função de uma vida urbana mais complexa, não tem sido compensado pelas chamadas redes sociais proporcionadas pela tecnologia da comunicação embutida nos nossos dispositivos eletrônicos.  
É claro que a Itália chora por seus mortos, assim como todas as nações atingidas pelo coronavírus, essa coisa viva que ninguém vê e que não quer deixar viver e que até pouco tempo ninguém nem sabia que existia. Mas também choraremos pelas cidades e ruas vazias, pelos restaurantes, cinemas, teatros e museus fechados, pelas crianças sem aulas nas escolas, tudo isso num processo que ainda nem sabemos ao certo como ou quando se findará.
Daí que, em algum momento, teremos que recomeçar. E talvez, agindo como fazem aqueles povos de países friorento, que a despeito de uma vida pouco habituada aos cumprimentos afetuosos e ao convívio em espaço público, pelo menos durante uma certa parte do ano, aprenderam a ser felizes.
 

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